Publicada em 05/07/2018 às 08h49.
Clubes têm oferta de US$ 200 mi para vender direitos do Brasileiro fora do país
Chineses e fundos internacionais disputam transmissão, mas recuaram ao perceber que clubes não sabem bem o que fecharam com TV brasileira

Lucas Figueiredo/ArquivoChineses e outros dois fundos internacionais têm interesse em comprar direitos do Brasileirão
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os clubes da Série A estão com propostas milionárias em mãos para vender os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para o exterior já em 2019, uma delas da China, de US$ 200 milhões (R$ 780 milhões). Outro fundo de investimento internacional admitiu pagar R$ 550 milhões, mas incluindo exploração de placas de publicidade. O impasse para o martelo ser batido é justamente o desconhecimento, por parte dos dirigentes das agremiações, de detalhes dos contratos de renovação assinados recentemente com a TV Globo. Na prática, eles não sabem se podem fazer o negócio ou se precisam do aval da emissora carioca.

Superesportes obteve com exclusividade o áudio da reunião realizada nessa terça-feira, na Câmara dos Deputados, em Brasília, com a presença de dirigentes de vários clubes das Séries A e B e do deputado federal Vicente Cândido (PT-SP). Não por coincidência, o político é diretor de relações institucionais e internacionais do Corinthians. Recentemente, ele deixou a função de diretor de assuntos internacionais da CBF*.

Estavam presentes representantes de Corinthians (Andrés Sanchez, que também é deputado federal pelo PT-SP), Flamengo (Eduardo Bandeira de Mello), Cruzeiro (presidente Wagner Pires de Sá e vice-presidente jurídico Fabiano de Oliveira Costa), Atlético-PR (Mario Celso Petraglia), Internacional, Coritiba, Figueirense, Avaí, Juventude e Vila Nova-GO.

No encontro, dirigentes debateram as propostas que a CBF apresentou aos clubes do mercado internacional pelos direitos de transmissão do Brasileiro. Desde então, o entrave passou a ser a falta de conhecimento do conteúdo negociado individualmente por cada instituição com a TV Globo. Em Minas, Atlético, Cruzeiro e América renovaram com a TV Globo de 2019 a 2024. Os acordos anteriores iam até 2018.

Outros clubes brasileiros fizeram acordos individuais parecidos. O Atlético Paranaense foi a exceção. Fechou a venda dos direitos de TV para o canal fechado Esporte Interativo, sem direito à exploração do conteúdo dos jogos em plataformas digitais.

Representante do Atlético-PR na reunião, Mario Celso Petraglia foi o único a mostrar conhecimento do que fechou com o Esporte Interativo. Justamente por isso, cobrou agilidade dos demais clubes no esclarecimento de cláusulas acerca da venda de direitos para o exterior. “Enquanto nós não tivermos, presidente Andrés (referindo-se ao mandatário do Corinthians, um dos organizadores do encontro), essa definição, não vem proposta firme (do exterior). Então, isso ficou essa dependência, e tenho que dar essa resposta aos fundos internacionais. O que a Globo, qual é a concorrência que nós vamos enfrentar com a Globo lá fora. Esse é o ponto de dúvida atual”.

Em outro ponto, Petraglia foi mais incisivo com seus colegas. “(Temos que levantar) outras plataformas que ela (Globo) não pode mais estar fazendo. Mas isso que temos que esclarecer urgente. Não adianta ficarmos na especulação, temos que saber objetivamente. (...) É um pouco mais complexo, mas tem que ver a tecnologia, se eles (Globo) têm direito ou não de transmitir o streaming, que é a internet, aí é que pega. Ela pode só transmitir só dentro da televisão da Globo. Aí ela criou a Globoplay, que é streaming, se ela estiver transmitindo os nossos jogos dentro da Globoplay, ferrou”, acrescentou Petraglia.

O presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, chegou a esboçar uma tese: “Até onde eu sei, é só o canal dela”. Em seguida, foi interpelado por Mario Celso Petraglia: “É até onde você sabe, mas não é o que ela (Globo) está dizendo”. O vice-presidente jurídico do Cruzeiro, Fabiano de Oliveira Costa, então emendou: “Estamos levantando”.

No decorrer do debate, o dirigente do Atlético Paranaense revelou que a falta de conhecimento dos clubes quanto ao conteúdo do contrato assinado com a TV Globo fez os chineses recuarem na intenção de adquirir os direitos de transmissão do Brasileirão.

”É assunto complexo, muito complexo, porque todos sabemos, sem nenhuma crítica, que realmente esse mercado não foi explorado pela Globo, o mercado internacional. Houve intenção de promover muito mais a marca da Seleção Brasileira pelo resto do mundo do que a marca dos grandes clubes brasileiros. São décadas em que isso aconteceu, então o mercado internacional desconhece o nosso produto.
É o início de um trabalho, temos que promover a seriedade do futebol brasileiro e vendê-lo. Essa oportunidade é mais um passo a partir do ano que vem. Mas nós sentimos, do mercado internacional, enviou uma carta de intenção firme de um grupo chinês, de US$ 200 milhões, só pelo Campeonato Brasileiro, só pelos direitos internacionais, sem inclusão da estática, porque a proposta que existe hoje na mesa da CBF inclui os direitos internacionais e estáticos (R$ 550 milhões), mas quando avancei para ver a proposta firme, vendo a carta de intenção, para fecharmos o mais rapidamente possível, a Globo se movimentou em nível internacional e começou a criar dúvidas dos direitos que ela tem por contrato. Então, os chineses, que têm sede em Hong Kong, retrocederam e não mandaram a oferta firme.
Daí buscamos outras alternativas e temos de dois fundos, duas cartas de intenção, de comprarem esses direitos desde que se esclareça qual é realmente o direito que a Globo tem lá fora. Então, nós precisamos, daqueles clubes que assinaram com a Globo, que não é o nosso caso, que nós não assinamos ainda a partir de 2019 com a Globo, só assinamos com a Esporte Interativo, e com Esporte Interativo nós fizemos questão de não vender o streaming, eles não têm, só tem direito à televisão fechada, nem fora nem dentro do Brasil. Mas nós desconhecemos o que os clubes assinaram com a Globo. Então, o Cruzeiro, outros ficaram responsáveis de fazer essa análise tecnológica de quais são os direitos que a Globo realmente tem lá fora”, disse Petraglia no encontro.

O presidente cruzeirense chegou a pedir tempo a Andrés Sanchez para levantar as informações necessárias. Por sua vez, o mandatário do Corinthians garantiu que só baterá o martelo com a empresa escolhida pela maioria dos clubes. ”O único impedimento, não é impedimento, a única coisa que pediria é se a gente ganha tempo. Quanto tempo a gente pode sentar e decidir pela melhor proposta”, disse Wagner Pires de Sá. “A comissão tem que sentar o mais rápido possível e decidir. O Corinthians só vai assinar o que a comissão decidir”, respondeu o corintiano.

Mais à frente, Wagner Pires de Sá se mostrou favorável a fechar com o fundo que ofereceu R$ 550 milhões (incluindo estática) e recebeu a reprovação de Petraglia. “O grupo que ofereceu R$ 550 milhões está disposto a fazer do jeito que está (sem saber dos detalhes dos contratos dos clubes com a Globo)”. O atleticano, então, disse: “Porque ele incluiu as placas dentro do pacote”, dando a entender que a oferta foi desfavorável economicamente.

Outro dirigente não identificado pela reportagem pediu a palavra e lembrou que o presidente eleito da CBF para o mandato de 2019 a 2023, Rogério Caboclo, deu versão de que a Globo perdeu o direito de explorar comercialmente a transmissão fora do Brasil. “Rogério Caboclo, de forma genérica, disse que o contrato de transmissão internacional com a Globo tinha acabado e eles iam começar novas negociações. A CBF participou de feira internacional e ofereceu o Campeonato Brasileiro para vários países”, alegou.

No fim do debate, o vice-presidente jurídico do Cruzeiro, Fabiano de Oliveira Costa, ressaltou a necessidade de os clubes fecharem algum contrato com empresas internacionais, justamente para reforçarem suas marcas no exterior. “É inadmissível que o Brasil, que se diz como melhor futebol do mundo, faça pesquisa na Europa e as pessoas não conheçam os clubes brasileiros. Aqui, acho que conhecemos todos da Inglaterra, da Itália, da Alemanha. E eles não conhecem nossos clubes. É trabalho muito mais institucional. O melhor projeto, necessariamente, não é o que dá o retorno financeiro imediato, tem que pensar a longo prazo”.

Na pauta da reunião em Brasília também estavam a criação de uma associação representativa dos clubes das Séries A e B, projetos de legalização de bingos em estádios, redução de encargos tributários e participação na recém-criada raspadinha Lotex.
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