Se a maternidade é valorizada, por que tantas mulheres morrem? Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit. Quis, neque soluta

Postado em 06 de Junho de 2018

Por: Carla Batista* FolhaPE

Painel ruas de Cape Town
Painel ruas de Cape TownFoto: Carla Batista/Cortesia

Por que é que as parturientes morrem, se a maternidade é tão valorizada entre nós? Por que é que mães morrem, se a morte materna pode ser evitada em quase 100% dos casos? Por que isso acontece se dados do Ministério da Saúde demonstram que as consultas de pré-natal por mulher grávida aumentaram nos últimos anos? Com certeza um dos motivos é que a qualidade desses atendimentos não cresce na mesma proporção. 

Para se ter uma ideia: no Brasil, a taxa de morte materna é 10 vezes maior do que a do Japão, que é de 6 óbitos/100 mil mulheres. Considere que entre 1990 a 2015 a taxa do país decresceu de 143 para 60 óbitos/100 mil. Agora, projete entre os efeitos da Emenda Constitucional 95, que congelou gastos sociais por 20 anos, o impacto sobre essa situação. Você vai ter mais um motivo para perceber como se pode voltar 20 anos em apenas 2! Ou como retroceder 40 anos, ou mais, em uma canetada irresponsável (daquele que não se responsabiliza, isto é, está pouco se lixando!). Porque os 20 já se foram nesses últimos 2. A conta, que é também matemática, mas não só - porque vidas não apenas se contam, cada uma delas é uma, única - pode ou poderá ser conferida.

No vídeo abaixo a médica pesquisadora da Fiocruz Kátia Silveira da Silva resume a situação da mortalidade materna no país e convoca profissionais de saúde ao enfrentamento do problema. Serão esses/as profissionais sensibilizados?

A Folha de Pernambuco publicou artigo que esclarece por que as mulheres negras são as mais atingidas. Confira como as condições socioeconômicas podem definir o acesso desigual à saúde

Então pense nas mudanças que seguiam numa escala progressiva, muito distantes ainda de alcançar uma situação ideal. Agora pense na reversão que nos impõe o atual (des)governo, já que nosso tempo é hoje. 

Morte por aborto também é morte materna

E por que é que as mulheres morrem quando - não querendo levar adiante uma gravidez indesejada - elas fazem um aborto? Por que é que elas morrem se, estando vivas e essas são vidas que devem ser preservadas, mortes por aborto também podem ser evitadas? E, muitas vezes, acontecem mesmo quando estão nas mãos de profissionais de saúde, que deveriam preservar vidas? 

Você conhece alguma dessas histórias de vida ou de morte?

E o que instiga também é: por que é que, sendo o aborto a quarta causa de morte materna no país, há grupos que defendem a sua total criminalização? Afinal de contas, têm sido as mulheres as responsáveis pela reprodução da vida. E porque, independente disso, suas vidas não precisam ser preservadas?

Um levantamento bibliográfico sobre aborto estigma social**, apontou que na discussão conceitual sobre estigma, compreende-se que nos processos estigmatizantes “os indivíduos são marcados por desgraçasvergonha e até mesmo repugnância”. O estigma estraga ou mancha suas identidades sociais, com o consequente efeito de excluir e desacreditar (Adesse e outras, 2016). A mudança do corpo da mulher com a gravidez e, no caso do aborto, o “caráter desnaturado da recusa à maternidade” estão, dentro de uma determinada perspectiva analítica, na sua origem. O que nos leva a muitas outras perguntas, entre elas: O que é que incomoda tanto e é respondido com violência negativa à vida das mulheres?

Foi por isso que ativistas pernambucanas interromperam, como forma de denúncia e recusa, a atividade organizada por vereadora recifense na semana que passou, com o intuito de restringir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Além da conivência - inaceitável para uma servidora pública - com a exposição das mulheres a mortes evitáveis

São outras as práticas necessárias, comprovadas cientificamente, para evitar que isso continue acontecendo. 

Grupo Curumim

 

O dia 28 de maio foi o Dia Internacional de Ação pela Saúde das Mulheres e também o Dia Nacional de Luta pela Redução da Mortalidade Materna. A data surgiu de uma Campanha de Prevenção coordenada pela Rede Mundial de Mulheres pelos Direitos Reprodutivos e pela Rede de Saúde das Mulheres Latino-Americanas e Caribenhas, em 1988. No Brasil a Rede Feminista de Saúde foi a articulação dos movimentos feministas que esteve envolvida com a construção desse processo. 

A Rede Saúde persiste tendo como prioridade a criação e fortalecimento dos comitês de mortalidade materna em todas as instâncias: federal, estaduais e municipais. Podemos afirmar que os resultados obtidos com a diminuição dos números de casos de morte materna no Brasil, em muito devem aos esforços de atuação desses comitês e da ação da Rede Saúde. É preciso continuar mobilizando para que eles sejam criados e mantidos, com o seu caráter técnico, científico e de controle social. 

Muitas coisas promissoras a serem comentadas nos últimos dias: resultado do plebiscito na Irlanda, mobilizações de jovens estudantes no Chile, as grandes mobilizações pelo direito ao aborto na Argentina… O que será feito nas próximas colunas. 

Infelizmente as notícias ruins do nosso país são significativas e preocupantes o bastante para exigir mobilização, o que está difícil de acontecer. De imediato: o Atlas da Violência de 2018 foi publicado e nele se comprova que a morte de negros e negras é duas vezes e meia maior que a de brancos/as. Nem uns nem outros/as. Queremos todos/as vivos/as. Mas os motivos para os quais os dados nos convocam são contundentes, não é mesmo?

Leia também:
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Informo que viagem à África e Ásia impedem que esta Coluna seja publicada semanalmente. 

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).
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